sábado, 9 de julho de 2011

Na face triste, a dolorosa beleza do humano

Queria saber fazer da minha tristeza arte. Algo útil, que trouxesse beleza, que oferecesse amparo, um colo quente para se encostar. Mas ela é só destruição. Me consome, desfaz os laços, produz o isolamento. Ah, poetas que transformam a lágrima em palavra, em imensidão no peito de quem lê, eu só posso invejá-los e consumí-los. Eu só sei escrever sobre mim e não sobre o mundo, esse mundo estranho e desconcertante, para ele, minhas rimas são vazias. E, às vezes, no meu coração brota uma inclinação para esse campo aberto que me arrebata; e passo minutos inteiros observando um cão que se coça, um casal que anda de mãos dadas mas não se fala, nem se olha, uma mosca grudada na janela do ônibus... Depois passa, me afundo na minha mente e seus problemas mesquinhos. Mas, só, só naqueles minutos absortos que eu sinto: isto é viver, e eu estou viva. Mesmo que por acaso, mesmo que sem querer...

Último bilhete

Essa triste face no espelho? Nunca mais. Esse discurso desencontrado, essas palavras sem sentido? Poupe sua retórica pouco desenvolvida. Desapareça. Lembranças do que já foi, do que poderia ter sido, para o futuro e para a família? Esqueça. Atravesse a rua, finja que não me conhece. Eu vou deixar esse ser de esperanças bobas e fantasias histriônicas pelo fim das desculpas, dos motivos rancorosos. Deixar tudo isso pelos cabelos ao vento e uma mala na mão. Minha porta está fechada e por favor, por tudo que eu já fiz, não me procure mais. Porque não estou à sua procura e de mim não haverá mais notícias. Não mais, não para você. Se me ligar, não deixe recados. Se me enviar cartas, voltarão para o remetente. Deixe-me, de uma vez por todas. Um adeus sem abraços para você, solidão.